Alemanha, anos 70: atentados a bomba, a ameaça do terrorismo e o medo do inimigo interior abalam as bases da ainda frágil democracia alemã. As crianças radicais da geração nazista, lideradas por Andreas Baader (Moritz Bleibtreu), Ulrike Meinhof (Martina Gedeck) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek) travam uma guerra violenta contra o que veem como a personalização do facismo. O objetivo é criar uma sociedade mais umana, mas os desdobramentos levam à perda da sua humanidade.CRÍTICAS
Heitor Augusto
Se você tem menos de 40 anos, é provável que nunca tenha ouvido falar, exceto em livros de História, da agitação política na Alemanha nos anos 60 e 70. Muito menos de um grupo de esquerda, o Baader Meinhof (também conhecido como Facção Exército Vermelho). Está na hora de conhecê-lo. Para tal, O Grupo Baader Meinhof, candidato alemão ao Oscar e ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, pode ser considerado o filme definitivo sobre o grupo “formalmente” criado em 1970 e pulverizado nove anos depois. De uma organização cuja história é pontuada por tiros, discussões políticas, explosões e um desejo de impedir o marasmo que permitira, trinta anos antes, a ascensão de Hitler, espera-se um filme com ação. Mas o diretor Uli Edel (Eu, Christiane F., 13 anos, Drogada e Prostituída) não transforma a história em uma vazia trama com perseguições alucinadas. Felizmente, investe em uma investigação psicológica de seus personagens, na análise política do pós-Segunda Guerra Mundial na Alemanha e nos acontecimentos mundiais dos anos 60. Dosa perfeitamente os dois elementos, movimento e reflexão, um filme de “ação cabeça”. Não é um tratado intelectual sobre a luta armada na Alemanha, porém passa longe do estereótipo de produções que não acrescentam nada (leia-se Trama Internacional). Entendemos o carisma de Andreas (Moritz Bleibtreu), a determinação de Gudrun (Johanna Wokalek), os conflitos de Ulrike (Martina Gedeck) e o sangue frio do chefe da polícia alemã (Bruno Ganz). Um elenco cujos nomes são difíceis de pronunciar, mas que é associado a bons filmes alemãos, como A Vida dos Outros (Martina), Aimée & Jaguar (Johanna), A Experiência (Moritz), A Queda – As Últimas Horas de Hitler (Bruno). Entre os quase 200 personagens de O Grupo Baader Meinhof, o mais interessante é Ulrike Meinhof. Ela é o elemento fundador do grupo e, simultaneamente, seu ponto mais fraco. Uma jornalista que percebeu que em momentos de cisão, a palavra não é suficiente. Sua mudança de postura é filmada como uma epifania, tão libertadora quanto o índio saltando da janela em Um Estranho no Ninho. Assistir a essa produção de Bernd Eichinger desperta em mim o desejo de ver um filme brasileiro de ficção sobre as organizações de esquerda brasileiras que atuaram na ditadura, como o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), ALN (Aliança Libertadora Nacional) ou a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Afinal, a exemplo de Ulrike Meinhof, temos jornalistas que deixaram as palavras e partiram para a ação, como Alípio Freire (da Ala Vermelha), Fernando Gabeira (MR-8), Luiz Eduardo Merlino (do POC) e até mesmo Frei Beto, que ao lado dos franciscanos apoiou a luta armada. Seria um ótimo complemento às cinebiografias (Lamarca), aos filmes de personagem (Cidadão Boilesen) ou a eventos (O que É Isso, Companheiro?, sobre o sequestro de Charles Elbrick). Alguém topa o desafio?
Se você tem menos de 40 anos, é provável que nunca tenha ouvido falar, exceto em livros de História, da agitação política na Alemanha nos anos 60 e 70. Muito menos de um grupo de esquerda, o Baader Meinhof (também conhecido como Facção Exército Vermelho). Está na hora de conhecê-lo. Para tal, O Grupo Baader Meinhof, candidato alemão ao Oscar e ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, pode ser considerado o filme definitivo sobre o grupo “formalmente” criado em 1970 e pulverizado nove anos depois. De uma organização cuja história é pontuada por tiros, discussões políticas, explosões e um desejo de impedir o marasmo que permitira, trinta anos antes, a ascensão de Hitler, espera-se um filme com ação. Mas o diretor Uli Edel (Eu, Christiane F., 13 anos, Drogada e Prostituída) não transforma a história em uma vazia trama com perseguições alucinadas. Felizmente, investe em uma investigação psicológica de seus personagens, na análise política do pós-Segunda Guerra Mundial na Alemanha e nos acontecimentos mundiais dos anos 60. Dosa perfeitamente os dois elementos, movimento e reflexão, um filme de “ação cabeça”. Não é um tratado intelectual sobre a luta armada na Alemanha, porém passa longe do estereótipo de produções que não acrescentam nada (leia-se Trama Internacional). Entendemos o carisma de Andreas (Moritz Bleibtreu), a determinação de Gudrun (Johanna Wokalek), os conflitos de Ulrike (Martina Gedeck) e o sangue frio do chefe da polícia alemã (Bruno Ganz). Um elenco cujos nomes são difíceis de pronunciar, mas que é associado a bons filmes alemãos, como A Vida dos Outros (Martina), Aimée & Jaguar (Johanna), A Experiência (Moritz), A Queda – As Últimas Horas de Hitler (Bruno). Entre os quase 200 personagens de O Grupo Baader Meinhof, o mais interessante é Ulrike Meinhof. Ela é o elemento fundador do grupo e, simultaneamente, seu ponto mais fraco. Uma jornalista que percebeu que em momentos de cisão, a palavra não é suficiente. Sua mudança de postura é filmada como uma epifania, tão libertadora quanto o índio saltando da janela em Um Estranho no Ninho. Assistir a essa produção de Bernd Eichinger desperta em mim o desejo de ver um filme brasileiro de ficção sobre as organizações de esquerda brasileiras que atuaram na ditadura, como o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), ALN (Aliança Libertadora Nacional) ou a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Afinal, a exemplo de Ulrike Meinhof, temos jornalistas que deixaram as palavras e partiram para a ação, como Alípio Freire (da Ala Vermelha), Fernando Gabeira (MR-8), Luiz Eduardo Merlino (do POC) e até mesmo Frei Beto, que ao lado dos franciscanos apoiou a luta armada. Seria um ótimo complemento às cinebiografias (Lamarca), aos filmes de personagem (Cidadão Boilesen) ou a eventos (O que É Isso, Companheiro?, sobre o sequestro de Charles Elbrick). Alguém topa o desafio?
Celso Sabadin
Os mais quarentões certamente se lembrarão: os noticiários dos anos 60 e 70 falavam insistentemente de um tal Grupo Baader Meinhof, associado a atividades terroristas na Alemanha, com ramificações pelo Oriente Médio. Era uma época de profundas convulsões políticas, onde imagens de manifestantes enfrentando policiais, ocultados sob densas camadas de gás lacrimogênio (hoje em dia fala-se de "gás de efeito moral", coisa que eu nunca entendi extamente o que signirfica) eram comuns nos telejornais norturnos. Com pouco mais de 10 anos da época, eu colocava dentro do mesmo tacho nomes como Willy Brandt, Aldo Moro, Tupamaros e - sim - Baader Meinhof, que permanceram no meu inconsciente preto e branco como coisas que o Cid Moreira e o Sérgio Chapelin falavam na época. Nada era muito claro para mim.
Para dissipar estas dúvidas (e o gás lacrimogênio) o drama
O Grupo Baader Meinhof cai como uma luva. De forma clara e linear (e não por isso menos empolgante), o filme é uma verdadeira aula de história política dos pós-Segunda Guerra, mostrando as origens, o desenvolvimento, a atuação e a queda do grupo radical de esquerda criado pelo ativista Andreas Baader (Moritz Bleibtreu, deCorrra, Lola, Corra) e pela jornalista Ulrike Meinhoff (Martina Gedeck).
Um dos grandes méritos do diretor Uli Edel ao adaptar o livro de Stefan Aust foi equilibrar ação, suspense, política, reflexão histórica e - por que não - um certo didatismo importante na contextualização dos fatos. E sem cair na fácill tentação de glamourizar a esquerda e demonizar a direita. O mundo é muito mais que isso, e o filme de Edel também. Os personagens são críveis, factíveis, os momentos de maior violência são bem dosados (ainda que flertem com a estética norte-americana, "pecado" cada vez mais recorrente no cinema europeu), e a discussão histórico-político da época é colocada de maneira que as duas horas e meia de filme não se mostrem, em nenhum momento, aborrecidas.
O Grupo Baader Meinhof agrada tanto aos interessados por uma vertente política de cinema, como também aos que preferem simplesmente uma boa história de ação. E, não por acaso, abre com Janis Joplin e fecha com Bob Dylan... O filme teve várias indicações a prêmios em eventos internacionais mas, mais importante que isso, reabriu algumas importantes discussões sobre a atuação do governo alemão sobre o caso.
Um dos grandes méritos do diretor Uli Edel ao adaptar o livro de Stefan Aust foi equilibrar ação, suspense, política, reflexão histórica e - por que não - um certo didatismo importante na contextualização dos fatos. E sem cair na fácill tentação de glamourizar a esquerda e demonizar a direita. O mundo é muito mais que isso, e o filme de Edel também. Os personagens são críveis, factíveis, os momentos de maior violência são bem dosados (ainda que flertem com a estética norte-americana, "pecado" cada vez mais recorrente no cinema europeu), e a discussão histórico-político da época é colocada de maneira que as duas horas e meia de filme não se mostrem, em nenhum momento, aborrecidas.
O Grupo Baader Meinhof agrada tanto aos interessados por uma vertente política de cinema, como também aos que preferem simplesmente uma boa história de ação. E, não por acaso, abre com Janis Joplin e fecha com Bob Dylan... O filme teve várias indicações a prêmios em eventos internacionais mas, mais importante que isso, reabriu algumas importantes discussões sobre a atuação do governo alemão sobre o caso.
Não deixe de ver.
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