sexta-feira, 5 de junho de 2009

Duplicidade (2009)



Espionagem, Romance





A agente da CIA Claire Stenwick (Julia Roberts) e o agente da MI6 Ray Koval (Clive Owen) deixaram o mundo da espionagem governamental para trás para se beneficiar de uma lucrativa "guerra fria" entre duas corporações rivais. A missão deles é encontrar a fórmula de um produto que renderá uma fortuna à empresa que a patentear primeiro. Estréia em 05 de junho.
CRÍTICA DO FILME
SÃO PAULO - A julgar pela temática dos dois filmes que escreveu e dirigiu, Tony Gilroy anda bastante preocupado com o mundo das grandes corporações."Duplicidade", que estreia no país nesta sexta-feira, é uma combinação entre espionagem, romance de alta voltagem, intriga e um pouco de comédia -- vinda basicamente do absurdo de toda a situação -- no mundo das grandes empresas.
No fundo, uma história de amor e sensualidade entre duas pessoas repletas de motivos para não confiarem uma na outra, "Duplicidade" é uma espécie de "Sr & Sra Smith" sem violência e com inteligência no lugar das armas.Talvez o filme possa assustar quem busca um divertimento descompromissado estrelado por Julia Roberts. Divertimento há, mas este não vem de graça -- na contra-mão dos produtos pasteurizados e auto-explicativos de Hollywood que desembarcam semanalmente nos multiplexes do mundo.Ao contrário de sua estreia na direção com "Conduta de Risco" (2007), Gilroy aqui deixa de lado a seriedade, tentando (e conseguindo) se comunicar melhor por meio da comédia logo nos créditos iniciais, quando dois chefões sisudos da indústria de higiene -- interpretados por Paul Giamatti e Tom Wilkinson -- caminham um em direção ao outro e se atracam exageradamente em câmera lenta.Num prólogo, Claire (Julia) conhece Ray (Clive Owen, de "Filhos da Esperança") numa festa da independência dos EUA, em Dubai. Eles dormem juntos, mas ela sai à francesa e leva consigo alguma informação importante. Anos depois eles se reencontram e, por mais que ele insista que a conhece e foi enganado, ela nega. Os dois são ex-espiões governamentais que agora trabalham para empresa privadas -- o que é muito mais rentável. Durante o reencontro se dá um diálogo memorável, que será repetido outras vezes em diversas situações e para os mais variados efeitos.
Há um motivo óbvio mostrando como um foi feito para o outro: jamais encontrarão um par tão à sua altura, mas, ao mesmo tempo, nunca poderão confiar no outro. Ainda assim nenhum dos dois ex-espiões, embora juntos por motivos do coração e do bolso, quer confessar seu amor. Afinal, a outra parte iria acreditar?
Se no passado o que movia os filmes de espionagem era a Guerra Fria, com nações assimétricas e igualmente poderosas, agora o marketing global é responsável por movimentar esse gênero cinematográfico.
Gilroy, que também roteirizou os filmes da trilogia "Bourne", sabe disso e coloca em cena duas empresas de grande porte, chamadas Burkett & Randle e Equikrom, numa guerra séria, pelo mercado de xampu, fraldas geriátricas, cremes e loções -- a diferença entre esses dois produtos, aliás, como fica claro, é importante.
Num mundo onde segredos valem ouro, Claire e Ray fazem de tudo para esconder o seu relacionamento. Viajando de lado a lado -- Roma, Londres, Dubai, Nova York -- a dupla se encontra e se desencontra, seduz um ao outro e troca segredos e informações confidenciais. Indo e voltando no tempo, Gilroy pede de seu público concentração para montar o quebra-cabeça de intriga e enganos da trama de "Duplicidade".
Uma das duas empresas tem uma fórmula rentável -- ninguém sabe qual é o produto, mas todos garantem que ele renderá lucros incalculáveis. Juntos, Claire e Ray deverão roubar a fórmula e enviá-la para a concorrente. A sequência do roubo, por exemplo, garante um dos momentos mais tensos do filme.
Gilroy brinca o tempo todo com o conceito de duplicidade: quem trabalha, na verdade, para quem; quem, realmente, seduz a quem? Por isso, o longa é um jogo de espelho, repleto de reflexos e leituras: uma comédia romântica no mundo da espionagem industrial, um suspense cômico cujo pano de fundo é o amor -- ou um filme bastante inteligente, que brinca de se levar a sério; ou um filme sério, que parece estar zombando do estado das coisas. Qualquer que seja a opção, "Duplicidade" mostra que ainda há vida inteligente respirando em Hollywood.
(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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