Ator interpreta político infiel em 'Intrigas de Estado', que estreia no país.Em entrevista ao G1, ele falou do papel e de suas ações sociais no Congo. Fábio M. Barreto Especial para o G1, em Los Angeles
Ben Affleck em cena do filme 'Intrigas de Estado' (Foto: Divulgação)
Inspirado numa série de televisão da BBC, “Intrigas de Estado”, filme de Kevin Macdonald (“O último rei da Escócia”) que estreia nesta semana no Brasil, coloca o jornalismo investigativo frente à frente com a velocidade da internet e avalia seus pontos fortes e fracos na luta diária pela notícia. Afinal, o que vale: velocidade ou confiabilidade?
Um dos astros que tem a responsabilidade de retratar essa situação é Ben Affleck, que conversou com G1 em Los Angeles para falar sobre seu novo filme, explicar por que ficou longe das telas e, de quebra, mostrar o que tem feito para ajudar áreas carentes no Congo.
Um dos astros que tem a responsabilidade de retratar essa situação é Ben Affleck, que conversou com G1 em Los Angeles para falar sobre seu novo filme, explicar por que ficou longe das telas e, de quebra, mostrar o que tem feito para ajudar áreas carentes no Congo.
G1 - Você interpreta um político infiel em "Intrigas de Estado". Acha possível ser um bom político sem usar o "lado negro" para conquistar vitórias importantes?
Ben Affleck - Embora dê certo charme ao personagem, e deixe os fofoqueiros do mundo real pulando de alegria, sou da crença de que isso seja irrelevante na arena política. Acredito muito mais na plataforma política e nas realizações do político em questão para o público, do que em sua vida pessoal ou, nesse caso, sexual.
G1 - Mas a presença de uma mentira no currículo, seja para a esposa, seja para o eleitorado, não implicaria na quebra de confiança desse ciclo?
Affleck - Pode ser, mas imaginemos dois cirurgiões: um deles é excelente, mas trai a esposa; o outro é medíocre, mas é 100% fiel. Qual você prefere na hora de ser operado? Eu quero o cara excelente, pode apostar. Não que eu aprove isso, mas a sociedade moderna tem essa obsessão pela vida pessoal, especialmente de nossos líderes, cuja principal função é tornar nossa vida melhor. Sempre me pergunto: qual a importância em valorizar qual carro certo político usa ou deixa de usar, em vez de criticar ou analisar suas realizações no âmbito legislativo?
G1 - Estava com vontade de interpretar um político ou alguém o sugeriu para o papel de Stephen Collins?
Affleck - Fui o último ator a ser escalado. Primeiro Brad [Pitt] saiu e chamaram Russell [Crowe], mas isso atrasou tudo e aí Edward [Norton] não podia cumprir o novo cronograma, pensaram em mim. Quando me ligaram, tive que decidir imediatamente (risos) se faria, ou não, esse papel. Bom, é só olhar para aquele elenco [o ator adora Helen Mirren], dá para dizer não? (risos).
G1 - Mesmo assim, simular essa amizade tão duradoura com o personagem de Crowe não deve ter sido tão simples, não?
G1 - Mesmo assim, simular essa amizade tão duradoura com o personagem de Crowe não deve ter sido tão simples, não?
Affleck - Essa foi minha maior preocupação, mas não tínhamos muito tempo para criar isso fora da tela. A parte boa é que ele fez o possível para estreitarmos nossa amizade, ficou bastante próximo e isso ajudou um bocado durante as cenas
G1 - Então, boa parte da pesquisa envolveu sentar e papear com Crowe?
Affleck - Também. Adoro essa parte (risos). Precisei fazer muita pesquisa para viver um político e, surpreendentemente, aprendi que preciso demonstrar muito mais respeito pelas pessoas que trabalham no governo. Estou muito confortável desse lado do jogo do poder (risos), e espero que eles estejam confortáveis do lado de lá.
G1 - Mas não está confortável sendo apenas um ator. Afinal, seu trabalho no Congo tem reverberado mundo afora.
Affleck - Cheguei num ponto da minha vida em que batalhar minha carreira e minhas necessidades pessoais não era o suficiente para mim. Faltava algo. Foi aí que li artigos sobre o Leste do Congo e fiquei anestesiado ao saber das mazelas que afetam aquele lugar, com milhares de pessoas morrendo todos os dias, um país cujo sistema de segurança entrou em colapso total e quis me envolver. Mas não vou bancar o bacana que caiu de pára-quedas na situação. Dediquei bastante tempo para conhecer pessoas envolvidas com o país, visitei várias cidades do Congo, produzi um documentário sobre os problemas lá, escrevi um artigo para a revista "Time" e, com sorte, pretendo iniciar minha própria organização com foco em alguns dos problemas que aquelas pessoas enfrentam. Espero que tudo aconteça no próximo ano e meio.
Affleck - Cheguei num ponto da minha vida em que batalhar minha carreira e minhas necessidades pessoais não era o suficiente para mim. Faltava algo. Foi aí que li artigos sobre o Leste do Congo e fiquei anestesiado ao saber das mazelas que afetam aquele lugar, com milhares de pessoas morrendo todos os dias, um país cujo sistema de segurança entrou em colapso total e quis me envolver. Mas não vou bancar o bacana que caiu de pára-quedas na situação. Dediquei bastante tempo para conhecer pessoas envolvidas com o país, visitei várias cidades do Congo, produzi um documentário sobre os problemas lá, escrevi um artigo para a revista "Time" e, com sorte, pretendo iniciar minha própria organização com foco em alguns dos problemas que aquelas pessoas enfrentam. Espero que tudo aconteça no próximo ano e meio.
G1 - E a linha contrária dizendo que a África não precisa de ajuda e que tudo isso é jogada de marketing, não especificamente no seu caso, mas em geral?
Affleck - Isso foi gerado por um livro lançado recentemente ["Dead aid", de Dambisa Moyo] que defende a tese do exagero de mídia quando se mostra os países africanos como indefesos, incapazes de se sustentar e, basicamente, um bando de miseráveis. E essa percepção prejudica pessoas e países. Com isso eu concordo, mas a discussão vai muito além. Só não acho que dizer que a ajuda financeira à África em dez anos, assim, de forma arbitrária, é apenas um modo extremo para vender livros e ser polêmico. É a mesma situação quando se ataca o Bono, é tudo tática para garantir vendas e difundir sua mensagem, por mais infundada que ela seja, em todos os lugares. A lógica criada por teorias como essa diz que é errado mostrar imagens de catástrofes ou de sofrimento agudo, como pessoas mutiladas ou, no caso dos Estados Unidos, casas submersas depois do Furação Catrina. Esse pessoal defende que devemos mostrar lugares já reconstruídos ou gente trabalhando, olhando para o infinito e pensando que suas ações vão ser recompensadas por uma mão invisível que a todos cura e protege. Isso não é verdade, é ultrajante, aliás.
G1 - Esse envolvimento social levou a uma certa redução na quantidade de filmes que você tem feito nos últimos anos?
Affleck - Nesse caso, não. O que realmente determina o ritmo de trabalho é a dinâmica entre minha esposa e eu. Trabalhamos alternadamente, ou seja, um de nós sempre está em casa com as crianças. Também levou um tempo para eu dirigir meu primeiro filme, mas sempre com o pensamento na família. Agora estou prestes a iniciar as filmagens de um filme com Tommy Lee Jones ["The company men"] e tenho mais um projeto para dirigir, então o ritmo se definiu naturalmente.
Crítica
‘Intrigas de Estado’ presta homenagem ao 'velho' jornalismo
História traz Russell Crowe e Ben Affleck nos papeis centrais.Filme estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (11).
No auge da crise que atingiu em cheio a imprensa norte-americana, quando alguns dos jornais mais importantes do país se veem prestes a fechar as portas, chega aos cinemas nesta quinta-feira (11) “Intrigas de Estado”, filme-homenagem à tradição dos impressos.
Baseado no seriado homônimo, já exibido pela BBC, o longa ganha as ruas de Washignton para mergulhar nos meandros da indústria bélica e nos bastidores da segurança nacional norte-americana.
Baseado no seriado homônimo, já exibido pela BBC, o longa ganha as ruas de Washignton para mergulhar nos meandros da indústria bélica e nos bastidores da segurança nacional norte-americana.
Russell Crowe é o jornalista Cal McAffrey, repórter veterano do “Washignton Globe”, que, ao se envolver na apuração do assassinato de um menor infrator, acaba descobrindo uma história maior e mais complexa.
O crime investigado pelo jornalista acaba levando-o a um outro caso que, separadamente, ganha as páginas dos jornais: a relação adúltera do congressista Stephen Collins (Ben Affleck) com sua assistente, que morre em circunstâncias misteriosas no metrô. Collins lidera uma comissão que apura a relação de uma empresa armamentista com o governo dos Estados Unidos – e além disso é amigo antigo de McAffrey.
Unidos pela (má) notícia, os dois se reencontram. O congressista busca proteção contra os paparazzi plantados em frente à sua casa; o jornalista quer o furo de reportagem. Mantêm uma relação cordial, de ajuda mútua, numa tentativa de conciliar a amizade antiga e os interesses pessoais. Na figura de McAffrey, principalmente, é depositada toda a bagagem do herói – mesmo Crowe fazendo questão de incorporar o tipo do jornalista sujo, cabeludo e barrigudo. É por meio do personagem de McAffrey que o roteiro apresenta críticas não apenas à indústria da fofoca, mas também à corrida da mídia on-line e à suposta falta de comprometimento e responsabilidade de alguns blogs. Em contrapartida, expõe o trabalho intenso e elaborado da apuração de acordo com os velhos moldes. Não que a chefe de McAffrey (a excelente Helen Mirren) não cobre dele ineditismo e histórias que rendam alta vendagem de jornais, mas os princípios do veterano são incorruptíveis, a não ser pelo óbvio conflito ético em que se mete ao decidir apurar um caso que envolve um amigo particular.
A redação do “Washignton Globe” é um capítulo à parte, representada em minúcias pela equipe de “Intrigas de Estado”, que percorreu as redações de tradicionais jornais norte-americanos, incluindo “Washington Post” e “Los Angeles Times”, fotografando e examinando documentos de arquivo que poderiam servir como inspiração. O desenhista de produção, Mark Friedberg, afirmou: “descobrimos, sobretudo, como os repórteres são bagunceiros. Eles não têm muito tempo para arquivar documentos. Arquivar significa empilhar papeis”. E assim tornou-se realidade a mesa caótica em que McAffrey escreve seus textos, repleta de recortes antigos.
O tempo todo, o clima do filme faz lembrar “Todos os homens do presidente” (1976), longa de Alan J. Pakula com Robert Redford e Dustin Hoffman sobre o Watergate, escândalo político que culminou na renúncia do então presidente americano Richard Nixon. E o diretor Kevin MacDonald assume não apenas a referência, como também a homenagem –“é um dos maiores filmes americanos de jornalismo já criados”, afirmou o documentarista escocês premiado com o Oscar com “One day in September”, e que alcançou notoriedade depois de dirigir “O último rei da Escócia”. Mas “Intrigas de Estado” não é um filme puramente de jornalismo - trata também de conspirações, reviravoltas e intrigas, como sugere o próprio título. Por trás das discussões de questões éticas da profissão, está um longa-metragem que também oferece bom entretenimento. E que termina com uma das sequências mais marcantes do cinema recente, com o jornal sendo impresso, enquanto a câmera acompanha todas as etapas do processo até a revelação de uma manchete que encerra a história.
O crime investigado pelo jornalista acaba levando-o a um outro caso que, separadamente, ganha as páginas dos jornais: a relação adúltera do congressista Stephen Collins (Ben Affleck) com sua assistente, que morre em circunstâncias misteriosas no metrô. Collins lidera uma comissão que apura a relação de uma empresa armamentista com o governo dos Estados Unidos – e além disso é amigo antigo de McAffrey.
Unidos pela (má) notícia, os dois se reencontram. O congressista busca proteção contra os paparazzi plantados em frente à sua casa; o jornalista quer o furo de reportagem. Mantêm uma relação cordial, de ajuda mútua, numa tentativa de conciliar a amizade antiga e os interesses pessoais. Na figura de McAffrey, principalmente, é depositada toda a bagagem do herói – mesmo Crowe fazendo questão de incorporar o tipo do jornalista sujo, cabeludo e barrigudo. É por meio do personagem de McAffrey que o roteiro apresenta críticas não apenas à indústria da fofoca, mas também à corrida da mídia on-line e à suposta falta de comprometimento e responsabilidade de alguns blogs. Em contrapartida, expõe o trabalho intenso e elaborado da apuração de acordo com os velhos moldes. Não que a chefe de McAffrey (a excelente Helen Mirren) não cobre dele ineditismo e histórias que rendam alta vendagem de jornais, mas os princípios do veterano são incorruptíveis, a não ser pelo óbvio conflito ético em que se mete ao decidir apurar um caso que envolve um amigo particular.
A redação do “Washignton Globe” é um capítulo à parte, representada em minúcias pela equipe de “Intrigas de Estado”, que percorreu as redações de tradicionais jornais norte-americanos, incluindo “Washington Post” e “Los Angeles Times”, fotografando e examinando documentos de arquivo que poderiam servir como inspiração. O desenhista de produção, Mark Friedberg, afirmou: “descobrimos, sobretudo, como os repórteres são bagunceiros. Eles não têm muito tempo para arquivar documentos. Arquivar significa empilhar papeis”. E assim tornou-se realidade a mesa caótica em que McAffrey escreve seus textos, repleta de recortes antigos.
O tempo todo, o clima do filme faz lembrar “Todos os homens do presidente” (1976), longa de Alan J. Pakula com Robert Redford e Dustin Hoffman sobre o Watergate, escândalo político que culminou na renúncia do então presidente americano Richard Nixon. E o diretor Kevin MacDonald assume não apenas a referência, como também a homenagem –“é um dos maiores filmes americanos de jornalismo já criados”, afirmou o documentarista escocês premiado com o Oscar com “One day in September”, e que alcançou notoriedade depois de dirigir “O último rei da Escócia”. Mas “Intrigas de Estado” não é um filme puramente de jornalismo - trata também de conspirações, reviravoltas e intrigas, como sugere o próprio título. Por trás das discussões de questões éticas da profissão, está um longa-metragem que também oferece bom entretenimento. E que termina com uma das sequências mais marcantes do cinema recente, com o jornal sendo impresso, enquanto a câmera acompanha todas as etapas do processo até a revelação de uma manchete que encerra a história.
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