quinta-feira, 13 de agosto de 2009

PRÓXIMAS ESTRÉIAS 14 DE AGOSTO: AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO



Em meio às montanhas de Portugual, o mês de agosto é repleto de pessoas e atividades: emigrantes voltam para casa, soltam fogos de artifício, combatem os fogos, cantam no karaokê, atiram-se das pontes, caçam javalis, bebem cerveja, fazem filhos.
A história que acompanha as relações afetivas entre pai, filha e o primo desta, todos músicos numa banda de bailes.
CRÍTICA
Sérgio Alpendre, UOL Cinema
Na primeira cena, uma raposa tenta encontrar um meio de entrar num galinheiro. As aves, em tensão crescente, temem pelo pior. A cara da raposa quando, de uma maneira súbita e surpreendente, consegue entrar, é impagável. Como uma criança diante de um prato de mingau, ela está sedenta. Um corte imposto pelo diretor não nos permite ver o estrago. Mas fica claro que a imagem funciona como uma metáfora do que veremos a seguir, em mais de um nível.

Primeiro a raposa perseguindo as galinhas remete ao diretor perseguindo os atores para a história que ele quer contar. Ele deixa indicações bem claras das características de seus personagens e vai atrás de pessoas - de preferência, sem experiência prévia em atuação - para interpretá-los. Como são músicos, acompanha uma série de bandas populares em uma região específica de Portugal. Elas tocam em bailes noturnos músicas que falam de traição e relacionamentos.

Segundo porque é o próprio filme que persegue uma dramaturgia convencional, que acaba justamente quando ela estava consolidada na tela. É o processo todo que nos é mostrado, mesclando-se, aos poucos, com o filme que o diretor Miguel Gomes tem na cabeça, numa operação inusitada de falso documentário.

Em terceiro, vemos Gomes se colocando em cena e perseguindo uma originalidade incrível. Seu apetite é o de um subversivo, mas sua calma é de um diretor que sabe muito bem o que quer, embora finja que está desinteressado, como na hora em que tenta deixar uma pretensa atriz a ver navios para que ele possa jogar malha.

O que difere Aquele Querido Mês de Agosto de vários outros filmes cuja proposta é fazer com que a realidade invada a ficção é que este se abre por completo ao que seria visto facilmente como problemas de produção. Ele escancara (ou finge escancarar) todos os percalços do processo e faz disso o cerne do filme. Diferentemente de Samba-Canção, de Rafael Conde, no qual vemos todos os percalços se transformando dentro do filme pronto, numa brincadeira divertida com os tempos, o filme de Miguel Gomes vai ele próprio se alterando à medida que ele encontra seus atores. O real deixa de invadir o filmado.

Mas o que é real? E o que é filmado? Talvez a melhor diversão não seja procurar a resposta para estas perguntas, mas se deixar levar pela prosa deliciosamente auto-referente expressa neste trabalho surpreendente e muito original. São tantos depoimentos engraçados - no que o uso inteligente da língua portuguesa para nós, brasileiros, revela algumas nuances que fazem toda a graça, seja pelo sotaque, seja pela entonação com que cada coisa é dita - que o filme se torna uma comédia rasgada em muitos momentos, perdendo um pouco o pique somente quando ameaça se tornar mais convencional, justamente quando os atores são encontrados e a trama começa a aparecer.
Mas aí surge o diálogo final entre o diretor e o engenheiro de som (que contribui também com sua feição de aparente indiferença): um verdadeiro deleite para nossos ouvidos.

Nenhum comentário: