terça-feira, 4 de agosto de 2009

Um filme para o presidente

Me dizem que o presidente Lula tem uma intuição política impressionante, e não tenho motivos para duvidar.

Desde que chegou ao poder driblou alguns rolos incríveis: crise cambial, ausência crônica de crescimento econômico, mensalão e suas cercanias, os ímpetos de Hugo Chavez, os desequilíbrios argentinos, a crise econômica, PMDB em geral, Sarney em particular (este ainda em curso).
Devo estar esquecendo muita coisa.

Pois bem: com tudo isso, acho que está entrando na maior roubada a que alguém poderia aspirar: um filme sobre sua vida, em vida e em poder.

Não tenho notícia de dirigente que tivesse recebido tão duvidosa honraria. Nem Mussolini, nem ninguém. Houve o filme sobre o De Gaulle, é verdade, mas era sobre a tentativa de dar um fim nele ("O Dia do Chacal"). Deve haver algum outro caso, mas não fui informado.

A única, e não muito louvável, exceção no gênero é Stalin, que era personagem mais ou menos frequente do cinema russo do seu tempo. Mas Stalin tinha essa vantagem incomparável: se não gostasse do filme passava fogo no cara. Se estivesse num dia bom, ele era apenas despachado para a Sibéria.

Ora, Lula não fará o mesmo com Fabio Barreto, o imortal autor de "Luzia Homem".
O orçamento está em R$ 17 milhões, o que não me parece exagerado para contar uma vida, sobretudo levando em conta que "Bela Donna", há onze anos, consumiu uma boa nota para não contar mais ou menos nada.

O dinheiro, pelo que li na coluna da Monica Bergamo, vem em boa parte de empreiteiras e empresas mais ou menos envolvidas com o governo. Algumas: OAS, Odebrecht, Camargo Corrêa. Todas empreiteiras. Oi: telefonia.

E por aí vai. Não quero dizer que exista corrupção, não é bem isso. Mas não acho que faça bem essa mistura estranha entre empreiteiras e um filme sobre a vida de um presidente no cargo.
Para resumir, fosse eu presidente e arranjaria algum meio de impedir a exibição do filme.

Mandava queimar os negativos, qualquer coisa. Seria acusado de autoritarismo, mas dane-se. Antes isso. O ideal, em todo caso, teria sido impedir a realização do filme. Agora já era.

Em todo caso, estou longíssimo de ser um gênio da política, quanto a isso não há nenhuma dúvida.

Também não há dúvida de que vaidade, quando passa de certos limites, pode ser um perigo. Pelas imagens que circulam no You tube parece que a coisa vai ser constrangedora.
Por Inácio Araujo, Blog do Inácio Araújo, de Boca em boca, UOL Cinema.

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