Christine Brown (Alison Lohman) é uma ambiciosa analista de crédito de um banco de Los Angeles, que tem um ótimo namorado, o professor Clay Dalton (Justin Long), e um futuro promissor.
Um dia, a senhora Ganush (Lorna Raver) chega ao banco, implorando que prorrogue o pagamento de sua hipoteca.
Mas, para agradar ao chefe, Christine nega o pedido, fazendo com que a senhora seja despejada de sua casa.
Como retaliação, a senhora Ganush lança uma maldição sobre a jovem e sua vida se transforma em um verdadeiro inferno.
CRÍTICA
Sérgio Alpendre, UOL Cinema
Sam Raimi está de volta ao gênero que o revelou, após o passeio com desenvoltura pela franquia de sucesso Homem Aranha, que dirigiu com certos poderes desde o primeiro episódio. Em Arrasta-me Para o Inferno fica claro o entendimento que Raimi tem das regras do gênero e a inegável habilidade na hora de subvertê-las.
Em primeiro lugar, o que está em jogo no filme inteiro é o dinheiro. O menino do começo é amaldiçoado pelo roubo de um colar, assim como a protagonista Christine Brown (aliás, Alison Lohman, de Coisas que Perdemos Pelo Caminho), resolve negar a extensão de um empréstimo a uma velhinha para que o banco lucre com a hipoteca da casa e ela seja favorita para assumir um cargo importante. Sua motivação foi, indiretamente, dinheiro. Assim como a motivação dos médiuns que tentam salvá-la da maldição de uma bruxa - a mesma da casa hipotecada - é principalmente os volumosos honorários que cobram. "É um grade risco", diz, com razão, o primeiro que ela encontra.
A questão é que essas coisas materiais – dinheiro, pagamento, promoção, casarões e outros bens valiosos – raramente aparecem com tanta inteligência em um filme de gênero. O achado de Raimi foi inseri-los meio que por contrabando, sem que o espectador se incomode de ter a atmosfera assustadora com o intermediário financeiro sempre à espreita. Podemos até rir do preço cobrado pela tentativa de livrar Christine da maldição, mas não consideramos aquilo como parte integrante do filme. Parece uma piada desconexa, uma brincadeira para o espectador. Como o filme tem outras brincadeiras com a plateia, geralmente parodiando clichês dos novos filmes de horror, fica difícil saber quando Raimi está se levando a sério, e se em algum momento está.
Essa paródia com o novo horror rende algumas cenas muito engraçadas, mas não funciona o tempo todo. O excesso de gosma que sai dos diversos orifícios da velha bruxa, assim como a fascinação que a câmera de Arrasta-me Para o Inferno parece ter pela podridão de sua carne e de sua ameaçadora dentadura às vezes dá uma impressão de que Raimi ainda está aprisionado em uma adolescência inconsequente e estéril, mas distante dos achados estilísticos de Uma Noite Alucinante II. Esse aprisionamento acaba fazendo com que certos tiros saiam pela culatra, e o ritmo seja prejudicado, assim como o clima assustador que ele consegue impor com precisão em algumas cenas. É um desagradável e inesperado ponto de desequilíbrio vindo de quem já mandou bem tanto no horror quanto na comédia (vide o hilário Dois Heróis Bem Trapalhões).
Dois parágrafos acima eu disse que parece piada a insistente conotação material das coisas. Na verdade, não é, apesar dos risos se justificarem. O dinheiro não está ali à toa. É o dinheiro que arrasta todos para o inferno. Moral, espiritual, material, o que for, esse inferno não é nada agradável. Não é o inferno idealizado por alguns playboys do cinema, com mulheres nuas, jogatina e muitas drogas. É simplesmente o fogo eterno sob a terra. O trunfo de Raimi é conseguir despertar com a mesma facilidade o riso e o horror.
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